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Obrigado Senhor

Videoperformance
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Dedico este video a Fabiane Maria de Jesus, que há um mês foi torturada e assassinada publicamente por uma nação insandecida, mergulhada nos extremos, desejosa da vingança como didática, que coloca os antagonismos partidários antes da vida humana.




Texto que li na Universidade de Budapeste na ocasião do linchamento no Guarujá:

Acreditamos durante muito tempo que a maior festa brasileira seria o carnaval. Também pensamos que poderia ser o futebol. Hoje sabemos que não. Chegamos a clareza de compreender que a maior festa brasileira é o linchamento. O episódio da mulher imolada no Guarujá por outros tão pobres quanto ela, inspirados pela mídia representante da classe média defensora do justicismo como correção social, nos trouxe essa revelação. Não foi a polícia arrastando favelados, não foram bandidos arrastando filhos da classe média, não foi a classe média financiando o extermínio. É no linchamento que vemos, reunidos em um mesmo espetáculo, sem qualquer hierarquia ou distinção, homens e mulheres, brancos e negros, pobres e ricos, favelados e classe média, polícia e bandido, culpados e inocentes, exploradores e explorados, "trabalhadores" e "vagabundos", militares e civis, ignorantes e cultos, reacionários e libertários, conservadores e liberais, mídia e espectadores, religiosos e ateus, crentes e "do mundo", cidadãos do bem e cidadãos do mal etc. Todos em comunhão, vibração e dança. Como em toda dança, não há heróis ou vilões, apenas a anulação das dicotomias para que a festa se dê no tempo e no espaço. O lichamento é o maior legado que nossa geração deixará às vindouras. Basta agora fundarmos o feriado nacional para o linchamento nosso de cada dia, só para a coisa ficar mais civilizada. Que venha a purga e que nos faça, a todos, irmãos.

4x JOIA

Quatro versões do poema JOIA.
Além do original em portugues, três versões traduzidas (inglês, espanol e holandês)
 




Coleção de audio de Ezra Pound


EZRA POUND - ÁUDIOS
(mais de 80 leituras de poemas - e uma entrevista)
http://www.ubu.com/sound/pound.html

for an animal’s sake




for an animal’s sake
wholly made of tetra pak
that devours itself as it moves

this calligram-animal
that trespasses the alphabet with its body

and the street’s filth through time

fucking factory against
the sky’s thousand tectonic shambles

layers of rubble with inner mechanics
floor-tiled rhinoceros

and even death is more meaningful when we fuck
a power plant generating opposite powers

or yet more
that ordinariness that lives off complexity:

the day-to-day softly swapping of
empty plots ordered lines of houses train wagons


© Márcio-André, 2012
Translation by Ana Hudson
First published on Poetry International, 2012

Un poema de Abraham Halfi


Coronada tu frente de oro oscuro
(no recuerdo este verso en otro canto).
Tu frente rimaría con ojos o con luz
(no recuerdo esta rima en otro canto).
Será música la vida
de aquel a quien te des.

Tierno, tu vestido rosa, suave.
En él te envuelves por las noches.
No quisiera contigo lazos fraternales;
ser el monje implorante ante íconos angélicos
y frente a él, tú: mujer.

Te place estar triste
y silenciosa.
Oir historias de aquí o de allá.
Y yo, que te miro en silencio,
sin voz y sin palabras,
olvido, por los otros, todo.
Mi alma mora
entre muros de tu casa
y allí, prisionera,
se despide de mí.
Ya, mi cuerpo te abandona.

Extiendo mi sueño, como alfombra, a tus pies.
Da, mi amada, sobre esas flores, pasos.
Ponte tu nocturno vestido rosado.
En pocas horas estaré contigo.

Y a tu frente, coronada de oro oscuro,
acercaré los labios como a un poema rimas.
Y un susurro en tu oído, hasta el amanecer,
como un borracho, hasta el alba:

coronada tu frente de oro oscuro...


Abraham Halfi (1904-1980)
Traducción: Gerardo Lewin

A poesia rara de Karinna Gulias


Se você não for uma pessoa investigativa ou não tiver um pouquinho de sorte, dificilmente terá ouvido falar em Karinna Alves Gulias. Não é uma poeta que está “na moda” ou que tenha aparecido nos jornais nas últimas semanas, apesar do grande destaque que se tem dado aos novíssimos autores. Ela mesma não faz muita questão disso e evita qualquer movimento no sentido de chamar demasiada atenção para si, tendo sempre preferido manter-se fora do burburinho. Entretanto, os poucos privilegiados que conhecem o seu trabalho são unânimes em reconhecê-la como uma das mais interessantes poetas surgidas nestes últimos anos.

Pelo seu caráter reservado, Karinna frequenta pouco as redes sociais e é mesmo estranha aos bons jovens escritores de agora. Vivendo atualmente no Reino Unido, a única graça que dá de sua poesia é através do blog Beggar’s Body Art, que ela atualiza com suas mais recentes composições – muitas (e cada vez mais) em inglês. Seu primeiro e único livro “Maria da Graça, Terra dos nomes perdidos” (Selo Orpheu, Editora Multifoco, Rio de Janeiro) teve tiragem limitada e foi distribuída a amigos próximos (não está nas livrarias, mas pode ser encomendado pelo site da editora). 

Lançado há dois anos, inaugurando positivamente a década de 2010, o livro é resultado da mais requintada ourivesaria poética. Valendo-se de uma narrativa mítica, a obra nos faz acompanhar a história de Poca Sombra e seu filho, chamado simplesmente de Filho, para construir um épico de fundação dos subúrbios do Rio de Janeiro. O livro surpreende pelo que possui de original e inexplorado, sem deixar de ter o poder de tocar sensivelmente (e, ao final, muito profundamente) nos medos e aspirações mais radicais. Ali, Maria da Graça é uma reinvenção poética do decadente e nada glamouroso bairro carioca; tão real quanto o imaginário que tomava a poeta quando morava nos subúrbios do Rio e diariamente passava pelo local. Karinna conhece como ninguém o poder encantatório das palavras e com seu livro aponta, com uma rara vocação à precisão da escrita, um caminho inédito na literatura brasileira - ainda que com fortes raízes na tradição do país - e verdadeiramente difícil para uma autora ainda muito jovem.

É fascinante ver uma poeta com menos de trinta anos imprimindo tamanha força, competência e complexidade arquitetônica em sua composição, arriscando-se na confecção de uma escrita ultratrabalhada, com a qual, valendo-se da serenidade de uma monja budista, desenha uma caligrafia de metáforas radicais e contrastantes

Karinna foi uma das fundadoras da editora Confraria do Vento e foi colaboradora ativa da Revista Confraria em seus últimos anos. Tenho muito orgulho de ter estado na aurora da escrita dessa moça, em uma época em que tanto ela quanto eu vivíamos no Rio e pudemos trocar experiências. Quem acompanha seu blog sabe que sua escrita continua crescendo e sabe que, a seu tempo, mas com seguríssima certeza, ouviremos muito falar dela. Quem viver verá.

Se tudo o que eu disse não parece convincente, confira abaixo, a primeira parte de seu livro.



[Torre-olho]

Nos atos em que nossa terra espera grandezas de líder, ordenados, verticalismos, emque o sagrado purifica a palavra humana e implanta cidades, habitações de seres autônomos com seus caminhos postiços. Vigente. E da mulher, conceito e instituição moral: aquela que pronuncia a defesa da palavra presenterito. Planta datual guerra e comércio. Nas leituras emque tudo está na verdade daqueles que pensam na linha da história romântica, ideológica: Descascar.
Nos atos feitos pelo nó da justiça da igualdade da liberdade. Os olhos encaram o objeto dismisso. Predomínio das coisas à imagem do vento: desmitificar de nomes e terras: Vento. Uno. Sobre aquelas que gestam: as coisas, a mulher, as mulheres, a terra; irremediavelmente iguais à vista. Conceitos puros presenteritos. Do subjeto olho que age livre. Conhecimento ativo: Descascar.
Conflito: Não está tudo no olho de um.
A língua se faz com dois. O lugar: a guerra e a gesta.


Parte I – A Primeira História

[O que não é]

Uma mãe feita para criar bois [espelhados],
administrar a base da terra para a permanência.
Fez um filho com a massa negra da noite.

Uma mãe feita para criar bois [gigantes]
e aumentar a sua sombra.

Acendeu velas
para o dia em que seria dona de cria.
Com o movimento,
seu nome mudou-se para outra casa;
pertence a outro lugar. A outro ofício.

Na mudança:
— De todos os rios por que passou,
ficou-lhes terços de seu cabelo, agora branco,
como espuma de mar.

À noite os rios a visitavam e derramavam
transparência em seu peito. De seu ventre, então,
nasceram cabelos de estrelas e espumas de mar. —

Mais uma vez seu nome foi mudado de casa,
                                                   até a vontade se retrair.
Seus cabelos caíram e o nome passou a ser:
poca sombra
e por fim
Nasceu um menino.




[Êxodo]

Novas sementes e flores cresceram;
o céu não era mais o velho, de lá nasciam pássaros
revelados a apenas um olho.
Maria da Graça,
antiga cidadela de grumo, aquática,
aterrada por trens.

***

De um lado ao outro, em Maria da Graça,
as pessoas atravessavam trens parados — homens ajudavam moças
e crianças [todos sem nomes.
Os trens brotavam da areia e propunham trilhos à terra.

***

Poca Sombra, nascida dentre nomes —
Era apelidada a mãe. Expulsa para a terra do comboio.

***


E as mães foram feitas para serem outra.




[Sistema de aço]

Partitura de aço, não ossos.
Para cada vida, um aparelho de imortalidade:
o ofício.

***

Eu comeria deus todo dia,
no olho das plantas; as plantas.
Poca Sombra não conhece a folha verde:
esquece que um dragão se cria na pilha de folhas secas:
avermelhando.

Ela sempre esquece novos pensamentos.




[Maria da Graça]

A encosta repetia os nomes perdidos,
[Muros sempre se erguem na pedra do sapo e no jacarezinho... –
o balbucio de palavras carregadas de vento:
                     Caíam duras como imagem no chão. 
                     E delas brotavam mais e mais trens.

Ferradura logística;
cargas de banha e sebo de cavalos e corpos.
                     Toda a banha se transforma em ferro e giz.

***

Poca Sombra não mais se sacrifica.
Poca Sombra chora
e a noite limpa seus olhos com desejos;
agora volta a ter destino. Já fadada a viver sem nome,
                                             na terra dos sem nome.
— Abandona Poca Sombra e cristaliza-se mãe.


***

Ninguém era de saber dela, nem antes, nem agora.
Todo seu movimento de eregir-se ficou para deus,
que passou a dever-lhe um nome.
Sem ter seu nome de volta,
comeu os dentes de leite de seu filho,
e virou Filho.

(...)


Parte III - Atalho

Filho pulou todos os anos de infantilidade.
As vias do trem eram seu caminho mais curto.
Não ouviu fábulas; nasceu homem.
Um homem sem efabulações é um senhor da dor.
A maldade lhe cai bem.

***

poca sombra, ainda quando via seu nome nascer,
imaginava o caminho de seu filho. Sempre a andar
sobre trilhos vazios. O trem vinha de longe.
O caminho de Filho era grandioso. Sem dor.
Mas o trem a iludiu.
Seu barulho, quando passava, que era grande.





Mais em beggarsbodyart.blogspot.com

Crítica de Marcelo Ariel ao livro "Maria da graça, terra dos nomes perdidos": http://www.acextrapolar.com/blog/?p=2254

ACORDAR (PARA KAFKA)


poema de L. K. Holt



É uma maxilar linguagem, a nossa, de libertação
ou sopro; um binário bizantino de sim, não (sim);
resina de besouros machos estalando acima.
Querido Franz você deve amar a quem quiser
e firme - esqueça a arbitrariedade do mundo
paternidade e maternidade. . . ambos serão suportados
para além de sua morte momentânea.
Nossos pais sempre viverão em nós de algum jeito;
em nosso fim chamaremos por eles na noite mais escura
do nosso primeiro quarto -
mesmo que eles não venham
haverá Café da manhã. Acordar é mínimo
ou milagre. Não há como dizer o que você vai ser,
ou como vai ser amado. Lance-se, agora firme.


Tradução de M-A

The gospel according to the sea

The gospel according to the sea é um curta metragem teuto-canadense realizado por Iva Kvasnicka e inspirado em poemas de minha autoria. O filme foi todo rodado em Lisboa, com o meu acompanhamento. Para a leitura, foram usadas as vozes de Chambel Santos e Afonso Oliveira. Veja o filme completo, abaixo:  



Clique aqui, caso queira visitar o website do filme

Revista 7 Faces. 3ª edição



Revista Babel Poética nº2

Para quem não conseguiu adquirir a edição impressa, vai abaixo a versão online. A revista, editada pelo poeta santista Ademir Demarchi, está ótima, com alguns dos mais relevantes poetas da atualidade. Além de ter colaborado no conselho editorial, indicando nomes, colaboro nesse segunda edição, com alguns poemas semi-inéditos. Desfrutem e compartilhem.


Charles Cros em português


Traduzi esses fragentos de Charles Cros a pedido de Sophie Lewis, crítica britânica e tradutora do poeta para o inglês, por ocasião do último Cidade aTravessa (abril de 2011) no Rio, para acompanhar sua leitura do original em francês. Não foi uma tradução muito acurada, devido ao pouco tempo que eu dispunha (fico devendo uma revisão mais precisa), entretanto já dá para ter uma idéia do trabalho tão interessante desse poeta do século XIX. 



I. Espanto

No meio da noite, um sonho. Uma estação ferroviária. Funcionários ostentam caracteres cabalísticos em seus quepes administrativos. Vagões de carga carregados de garrafões de ferro fundido. Os carrinhos de mão passam com pacotes que são arrumados nos vagões do trem. Uma voz de supervisor grita: Aos cuidados do Sr. Igitur, destinação: lua! Um funcionário vem e cola uma etiqueta no pacote designado - um garrafão semelhante àqueles dos vagões de carga. E após a pesagem na balança, embarcamos. O apito, afiado, vertiginoso e prolongado, anuncia a partida.
Despertar repentino. O apito termina como o miado de um gato. O Sr. Igitur se lança, estoura o vidro e mergulha seu olhar no azul escuro onde plaina o rosto zombeteiro da lua.


II. a vaidade submarina

Anfitrite rosa e loira passa com sua corte em um distante glauco, sob as águas dos mares do sul. Como as ninfas parisienses que vão à floresta, ela própria conduz sua concha de molusco, delicado coupé esmaltado em negro luzidio, nacarado de azul.
A bela deixa os cabelos à brisa líquida e salgada. As pálpebras serram-se à metade e suas narinas rosadas se dilatam de prazer pelo passeio suave.
Com que arrogância seus belos braços se estendem e alçam as rédeas, finas algas verdes, dos dois dragões-marinhos vestidos de castanho-claro! É o inesperado absurdo feminino, desastroso e adorável, mais vaidosa dos tecidos comprados que pela alva curva de seu seio, mais orgulhosa pela linhagem de sua nobre montaria que pela transparência de sua própria íris.
Ela esperou que surgisse uma reunião de caridade, onde nereides fazem doações, escoltadas por entre a plebe por tritões engomados em seus trajes cerimoniais, e onde as sereias devem ser ouvidas em favor dos conjuntos habitacionais que compõem o coral.
Ela chegará atrasada, um pouco de propósito, para fazer uma entrada espetacular no meio do discurso oficial do Sr. Proteus, organizador zeloso, mas chato de se ouvir.
Ela chegará tarde, porque, feliz em poder ser vista, mesmo pelos mais humildes cidadãos das águas, ela empinará seus dragões do mar e os fará bater os cascos no solo, fingindo não poder domá-los.
A beneficência não é, afinal, encantar gratuitamente os olhos de tantas pobres pessoas?

III. O navio-piano

O navio corta com velocidade impressionante o oceano da fantasia, impulsionado pelo vigoroso esforço dos remadores, escravos de várias raças imaginárias.
Imaginárias, uma vez que seus perfis são todos inesperados, uma vez que seus torsos nus são cores raras ou impossíveis em raças reais.
Há verdes, azuis, carmins, vermelhos, laranjas, amarelos, como em pinturas egípcias.
O centro do navio é um estrado levantado e sobre o estrado um piano de cauda.
Uma mulher, a rainha da ficção, está sentada diante do teclado. Sob seus dedos róseos, o instrumento emite sons aveludados e poderosos que cobrem o rumor das vagas e os suspiros da força dos homens.
O oceano de fantasia é domesticado, nenhuma onda será suficientemente ousada para estragar a madeira do piano, obra prima da carpintaria em pau-rosa cintilante, nem para molhar o feltro dos martelos ou enferrujar as cordas de aço.
A sinfonia impõe a rota aos remadores e timoneiro.
Por qual caminho? e a qual porto ela nos levará? Remadores não sabem absolutamente nada, nem mesmo o timoneiro. Mas eles vão para o oceano da fantasia, sempre em frente, sempre corajosos.
Velas, avançar, avançar! Grita a rainha da ficção em sua sinfonia sem fim. Cada milha percorrida é felicidade conquistada, uma vez que se seguir o objetivo supremo e inefável, é aproximar-se do infinito inacessível.
Avante, avante, avante!

Charles Cros
tradução de Márcio-André




Eis o original:



Sur trois aquatintes


I. Effarement

Au milieu de la nuit, un rêve. Une gare de chemin de fer. Des employés portant des caractères cabalistiques sur leurs casquettes administratives. Des wagons à clairevoie chargés de dames-jeannes en fer battu. Les brouettes ferrées roulent avec des colis qu'on arrime dans les voitures du train.
Une voix de sous-chef crie: La raison de M. Igitur, à destination de la lune! Un manoeuvre vient et appose une étiquette sur le colis désigné - une dame-jeanne semblable à celles des wagons à claire-voie. Et, après la pesée à la bascule, on embarque. Le coup de sifflet du départ résonne, aigu, vertigineux et prolongé.
Réveil subit, Le coup de sifflet se termine en miaulement de chat de gouttière. M. Igitur s'élance, crève la vitre et plonge son regard dans le bleu sombre où plane la face narquoise de la lune.


II. Vanité sous-marine

Amphitrite rose et blonde passe avec sa suite dans un lointain glauque, sous l'eau de la mer du sud.
Comme les nymphes parisiennes qui vont au bois, elle conduit elle-même sa coquille de moule, délicieux coupé verni en noir luisant, rechampi d'azur et de nacre.
La belle abandonne ses cheveux à la brise liquide et salée. Ses paupières se ferment à demi et ses narines rosées se dilatent de plaisir en cette course aventureuse.
Avec quelle arrogance ses beaux bras s'allongent et tendent les rênes, minces algues vertes, des deux hippocampes fougueux à la robe alezane claire!
C'est l'imprévue absurdité féminine, désastreuse et adorable, plus fière des étoffes achetées que des blanches courbures de son sein, plus orgueilleuse de la pure généalogie de son attelage que de la transparence de ses prunelles.
Elle est attendue à quelque réunion de bienfaisance où des Néréïdes font la quête, escortées au milieu de la foule par des tritons empesés dans leur faux-col de cérémonie, et où les sirènes doivent se faire entendre au profit des cités ouvrières qui fabriquent le corail.
Elle arrivera en retard, un peu exprès, pour faire une entrée à sensation au milieu du discours officiel de M. Protée, organisateur zélé mais ennuyeux à entendre.
Elle arrivera en retard, car, heureuse d'être regardée, même par les plus humbles citoyens aquatiques, elle retient ses fringants hippocampes et les fait piaffer sur place, feignant de ne pouvoir obtenir qu'ils avancent.
N'est-ce pas d'ailleurs de la bienfaisance que de charmer gratuitement les yeux de tant de pauvres gens?


III. Le vaisseau-piano

Le vaisseau file avec une vitesse éblouissante sur l'océan de la fantaisie,
Entraîné par les vigoureux efforts des rameurs, esclaves de diverses races imaginaires.
Imaginaires, puisque leurs profils sont tous inattendus, puisque leurs torses nus sont de couleurs rares ou impossibles chez les races réelles.
Il y en a de verts, de bleus, de rouge-carmin, d'orangés, de jaunes, de vermillons, comme sur les peintures murales égyptiennes.
Au milieu du vaisseau est une estrade surélevée et sur l'estrade un très long piano à queue.
Une femme, la Reine des fictions, est assise devant le clavier. Sous ses doigts roses, l'instrument rend des sons veloutés et puissants qui couvrent le chuchotement des vagues et les soupirs de force des rameurs.
L'océan de la fantaisie est dompté, aucune vague n'en sera assez audacieuse pour gâter le dehors du piano, chef-d'oeuvre d'ébénisterie en palissandre miroitant, ni pour mouiller le feutre des marteaux et rouiller l'acier des cordes.
La symphonie dit la route aux rameurs et au timonier.
Quelle route? et à quel port conduit-elle? Les rameurs n'en savent trop rien, ni le timonier. Mais ils vont, sur l'océan de la fantaisie, toujours en avant, toujours plus courageux.
Voguer, en avant, en avant! la Reine de la fiction le dit en sa symphonie sans fin. Chaque mille parcouru est du bonheur conquis, puisque c'est s'approcher du but suprême et ineffable, fût-il à l'infini inaccessible.
En avant, en avant, en avant

Monsanto : poema inédito

Abaixo, um dos poemas que serão publicados em livro pelo selo Dulcinéia Catadora, de São Paulo, sob a coordenação de Lucia e Carlos Pessoa Rosa. Esse poema foi escrito durante (e depois de) minha estadia na aldeia histórica de Monsanto, na qual vivi por quase quatro meses. A primeira parte já foi publicada no jornal Público, de Portugal, porém o resto do poema é ainda inédito. Espero que gostem.



MONSANTO

1

toda cidade é esboço dela mesma
ou labirinto móvel para cães

e de tanto haver gente sempre nos adequamos a ser outro:
a cidade contém dentro três outras cidades
que nunca se tocam

e somatizam nos habitantes até deformá-los

mas o pôr do sol é sempre esse
desde o principio do sol e do estado das coisas

o pôr do sol que se ama como latão velho
e tudo o mais é variação de pedra

nesta aldeia onde até o deus é de granito
e tem sonhos de pedra

com fêmeas mortais num jardim de areia e pedra

convém fugir dela antes que a velhice chegue
pois também as coisas perecem mais rápido do que percebemos

aqui cada dia é um dia
é preciso partir antes que chegue outro

e é triste notar que nada permanece de nosso
antes mesmo que não se esteja mais aqui


2

a última estrela da noite vingou na primeira luz da aldeia

foi quando ela veio atravessando os pomares
e as primeiras flores em seu vestido azul
e sentou-se ao meu lado no meio fio
e esperamos amanhecer


3

este é um templo
como é templo o colar de dentes
desta que agora é minha amante

sua boca que certa vez beijou um folião
no carnaval do engenho novo

desde então tem escama nos dentes
pérolas nos dentes dentes nos dentes

seu corpo é templo por dentro e à volta
maior que toda ela enorme nela
e circunda sua cabeça como um músculo

um templo só pode ser compreendido
de dentro do templo

é no templo que está guardado
esse amor incondicional

somos templo um do outro


4

a paisagem descola do horizonte

nós ao pé da fonte comendo tangerinas frescas
enquanto a lua amadurece num galho baixo

no frio as palavras ganhando massa
na bruma-flor do seu hálito

simples é pensar nos caminhos que partem desta aldeia
esses trens europeus com trilhos serenos

não foram em vão os favores do vento no cabelo das colegiais
algumas ternas outras safadas

para uma casa ilhada na névoa
seus dois olhos-alimento como gomos fatiados

e esse dia terá sido uma lembrança boa
dentro de um dia bom

não supomos que tão logo seríamos estranhos um ao outro
e a solidão que tínhamos um no outro
terá se tornado mera ausência


5

um dia dançamos no saguão de um hotel em buenos aires
um dia cuidei de sua costela quebrada

mas irajá não cabia em monsanto
icaraí ou realengo não cabiam
nossas imagens não cabiam na paisagem

quando ela se foi largou os dias
sem ninguém para recordá-los

um dia fêmea uma dia mãe
um dia morta


6

não se fala da memória estando na memória
dela só sabemos seu nome

ela não existe fora de si
como o tempo não se move fora dela:

a memória só comprova a si própria

equidistante na ida e no retorno
esse caminho do qual nos separamos juntos

toda distancia real sonhada através dos mapas

estamos na memória como estamos na casa
e nela habitamos sós

monsanto foi o fim de sua própria história
desacontecida conforme contada

suas ruas semi-apagadas num sonho já velho
lá onde ainda podem ser caminhadas


Márcio-André, in: CAZAS. São Paulo: Dulcinéia catadora, 2011



.

LA RENOVACIÓN - Poema inédito de José Kozer



Um poema inédito de José Kozer, recebido em primeira mão do próprio mestre. "Recién salido del horno, todavía me huelen las manos a pan", segundo suas próprias palavras. Coisa rara, biscoito fino. Aproveitem.




LA RENOVACIÓN

Aquel día, y lo considero memorable, se me
pegaron las sábanas.

Olga muerta, me lo comunicó su hija, que de
paso es mi hija, y me
hice el que no sintió
nada. Me hice y no
me hice, pasó la
bandada de totíes
de siempre (aquel
día con retraso).

Leí un capítulo de la Biblia en voz alta, por
sus despojos. ¿Los
despojos de Olga 
o de los totíes;
murieron?

Adiós, Olga, con tu dedo de frente, el apellido
que usurpaste, haber
vivido (cada vez peor)
del cuento, ningún
esmero de mi parte
en este instante, nada
de reminiscencias ni
descripciones de las
idas eras, ni una
anécdota de un
estólido anecdotario
en que tú y yo, nada.

Colgué el teléfono. Y salí disparado a leer
Eclesiastés 12:12, luego
de tender la cama. Once
de la mañana, a lo que
creo. La Biblia depositada
en su lugar (nada estelar)
del librero: hacía años
que no la abría. Yo que
fui tan. Están bastante
sucias las sábanas.
Ajadas. Y amarillentas
las páginas sagradas.
Yo también. Que
aguanten todos la
vela, entre todos.
Estoy fuera. Renqueo,
camino del tocadiscos.
Prokoieff (sonatas). Va
para dos semanas de
lo mismo, y dentro de
lo mismo, variaciones
del tipo cambiar
(mañana) las sábanas,
Bartók al tocadiscos.

Hace años que no me siento así de bien.
Eufórico. Todo me
sonríe. La buena
música me resulta
mejor que nunca,
los poemas de
Shelley se han
ido encumbrando
poco a poco en mi
cabeza, y créase
que no, de vez en
vez me extasían
(Carta a Maria
Gisborne).

Hago vida moderada. Pese a los años tengo
buena salud, salvo
quizás lo de la
cagalera. Siempre
tiene que haber algo.
Lo mejor no obstante
está por venir, y creo
acaba de empezar.
Once de la mañana,
y acabo de dejar la
cama, yo que
durante décadas
he despertado a
las cinco treinta en
punto clavado por
el reloj de mesa y  
por todos los relojes
astrales detrás y
debajo de la bóveda
celeste (toma).

¿Qué me propongo? Nada. Un caos moderado.
En vez del huevo duro
con pan, esta mañana,
con sumo retraso, me
empujo una pechuga
fría de pollo, la bajo
con unos lingotazos
de scotch. En las
rocas. Una, la de
Prometeo encadenado,
por meterse donde no
lo llaman. Ya. Tengo
ochenta años, todo
resulta evidente
cuando se está a
punto de variar: a
punto de parihuelas,
nada más cómodo,
te llevan en andas,
y te refresca la brisa,
el viento alza la mortaja,
y ahí se me ve, patas
por delante, obligado.

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