Gonzalo Rojas


Carta a Huidobro

1. Pouca confiança no XXI, em todo caso algo acontecerá,
morrerão outra vez os homens, nascerá algum
de que ninguém sabe, outra física
em matéria de liberdade fará mais próxima a imantação da Terra
de modo que o olho ganhará em prodígio e a viagem mesma será voo
mental, não haverá estações, só com abrir
a chave do verão por exemplo nos banharemos
no sol, as moças
perdurarão belíssimas esses nove meses por obra e graça
das galáxias e outros nove
por acréscimo depois do parto em que pese
o crescimento dos cedros de antes do Mundo, assim
as marés estremecidas dançarão airosas outro
prazo, outro ritmo sanguíneo mais fresco, o que por contradança fará
com que o homem entre em seu húmus de uma vez e seja
mais humilde, mais
terrestre.

2. Ah, e outra coisa sem vaticínio, pouco a pouco envelhecerão
as máquinas da Realidade, não haverá drogas
nem míseros filmes nem jornais arcaicos nem
– dissipação e estrondo – mercadores do aplauso ignominioso, tudo isso
envelhecerá na oposta
da criação, o olho voltará a ser olho, o tato
tato, o nariz
éter de Eternidade na descoberta incessante, a fornicação
nos fará livres, não pensaremos em inglês, como disse Darío, leremos
outra vez os gregos, voltar-se-á a falar em etrusco
em todas as praias do Mundo, na altura da quarta
década unir-se-ão os continentes
de tal modo que a Antártica entrará em nós com toda sua fascinação
de borboleta, de turquesa, sete trens
passarão sob ela em múltiplas direções a uma velocidade desconhecida.

3. Até onde podemos ver Jesus Cristo não virá
na data marcada, pássaros
de alumínio invisível substituirão os aviões, já no fim
do XXI prevalecerá o instantâneo, não seremos
testemunhas da mudança, dormiremos
progenitores no pó com nossas mães
que nos fizeram mortais, de lá
celebraremos o projeto de durar, parar o sol,
ser – como os divinos – de repente.

tradução de Suzana Vargas
Revista Confraria n°25 (1ª edição impressa)

Bernart de Ventadorn: Ben m'an perdut

Não entendi nada, mas é o que está escrito:

Fyysistä runoutta

Brasilialainen runoilija, kustantaja ja multimediataiteilija Márcio-André yhdistää runon musiikkiin ja muihin taiteisiin. Coimbrassa hän soitti viulua runoesityksensä lopuksi.

Márcio-André alkoi kirjoittaa vakavammin 20-vuotiaana. Hän ei ollut tyytyväinen siihen, että runous ja musiikki olivat perinteisesti olleet erillään, vaan halusi yhdistää ne. Hän halusi runouteen mukaan fyysisyyden, joka ilmenee esiintymisen lisäksi Márcio-Andren runoissa, joissa sana etsii ruumiin rajoja kielessä ja kaupungissa.
-Jo Niebelungin saagoja laulettiin, samoin antiikin Kreikassa musiikki oli runouden tukena.
Marcio-Andre imee vaikutteita omaan runouteensa niin muilta kirjailijoilta (Haroldo de Campos, Ezra Pound, T. S. Eliot, James Joyce,Sousandradelta), musiikista (Philip Glass, John Cage, La Mont Young) kuin runoudesta (Mallarmé, Serge Pey, Bernard Heidsieck, Marinetti, Gennadi Aigui ja Manoel de Barros). Myös filosofia, tanssi ja kuvataiteet innoittavat nuorta runoilijaa.
Márcio-André on toimittanut kahden vuoden ajan Internetissä ja myös painettuna ilmestyvää Confraria-lehteä ja hän on Confraria do Vento –kustantamon vetäjä.
-Lehdessä julkaistaan runouden lisäksi myös esseitä ja kuvataidetta. Olemme julkaisseet muun muassa Baudrillardia.
Márcio-Andrén uusimpia projekteja on vuonna 2002 käynnistynyt Movimento Perpétuo, jossa hän yrittää kritisoida modernia rationalismia. Häneltä on ilmestynyt myös 14-sivuinen Cazas-kirja, jonka esseissä kartoitetaan talojen poetiikkaa. Aiheesta on tulossa laajempi kirja.
-Kaikki arkiset asiat ovat poeettisia. Kapitalistinen projekti perustuu tuotantoon ja kuluttamiseen – talo on hyvä kuva siitä. Tavallisesti taloa ei pidetä kauniina. Minä yritän löytää runollista sellaisesta, jota ei perinteisesti pidetä runollisena ja joka ohitetaan liian nopeasti.
Márcio-André sanoo tyytyvänsä vähään, ja siksi elää vapaana taiteilijana.
-Ruumis on pyhä paikka, perusta. Kuva ja sana palaavat ruumiiseen, joka on runoa.

veja no blog original: http://arjentola.blogspot.com/2007/06/fyysist-runoutta.html

Jarkko Tontti

Será o umbral da porta mais feliz do que a soleira? Há quarenta anos já que o umbral injuria o seu parceiro, um plebeu a quem se incomoda como uma criança. Haverá no mundo justiça, ou só divergências de altura?

Existem também divergências de pressão. Existem divergências. A esposa se divorcia do esposo. A moça do moço e o moço da moça, o filho do pai, o filho da mãe. O dia diverge da noite e o chão do teto. O copo se separa da mesa e sobe para os lábios. Os lábios se separam mas voltam a se juntar.

Quando vi o primeiro centauro da minha vida deixei de acreditar. E então este centauro se ergueu sobre as patas traseiras e passou por debaixo do umbral, por cima da soleira,

com cuidado.


Poema de Jarkko Tontti
(in: Revista Confraria n°25 - 1ª edição impressa)
Traduzido do finlandês por Ana Soares e Merja Mettos-Pereira

Duas lacunas preenchidas



Não saberia descrever a emoção que se abateu em mim quando soube de duas novidades editoriais - duas, aliás, das mais importantes que tenho visto nos últimos tempos.
O selo Demônio Negro, do camarada Wandeley Mendonça, acaba de lançar uma edição definitiva (a primeira tipografada - não facsimilada) de O Guesa, de Sousândrade, obra que, a despeito de sua alta relevância para a literatura brasileira (para não dizer universal) e de seu número crescente de admiradores, não é encontrada com facilidade nas prateleiras. É inacreditável que uma publicação desse quilate só se torne viável pelo esforço visionário de uma pequena editora.
A outra novidade - também pela Demônio Negro! - é a reedição de Reduchamp, uma pequena obra prima de 1976 de Augusto de Campos (que, aliás, faz um belo prefácio a essa edição do Guesa) e Julio Plaza. Tiro certo desta que tem tudo para se tornar uma das mais inventivas e interventivas editoras de nossa geração.
Mas corra, porque ambas as edições são limitadas e numeradas (o Guesa, por exemplo, dispõe somente de 150 exemplares).


Revista Confraria nas bancas e livrarias

Lembro que a revista Confraria n°25 (1a. edição impressa) está sendo vendida nas livrarias e em bancas selecionadas do Brasil e de Portugal. Veja a listagem aqui. Caso a livraria na qual você é cliente não tenha a revista, basta pedir que ela faça uma encomenda.

POEMA INÉDITO

aqui do estômago desta baleia

a cidade é um cardume cintilante
e
a estátua de drummond tem as costas ao oceano –
[as estátuas são para os homens não para o mar]

cultivar um peixe por dentro
para um dia comê-lo

esperando uma mulher surgir da precisão da ossada

um dia somos felizes em nosso jardim cetáceo
e ela caminha suavemente ao meu lado
sonhando o domingo mais triste do mundo no subúrbio do lado de lá

um dia estamos na meia idade e bebemos porque não há opção

e o guindaste no cais estará esmagado como um inseto morto
diante das mil falhas na goela das águas

o mar está na foto dos homens não no sonho das estátuas


Márcio-André

Oulipo: o jogo da literatura - de 25 a 30 de outubro

Leituras públicas de textos Oulipianos dramatizados; Oficinas voltada para jovens escritores; mesas redondas entre escritores, cineastas, artistas gráficos e dramaturgos; Dramatização de textos; Exposição de quadrinhos Oubapo com participação de designers gráficos brasileiros; Ciclos de estudo “Oulipianos” nas Universidades Federais.

Publicaremos mais informações sobre a programação por aqui.

Saudade desta pessoa

Homenagem a amiga Adriana Bebiano
(uma das meninas de Coimbra).

Foto de Jannifer Taggart

Paulo Scott e eu no Cinematèque

Para quem estiver em Coimbra

Contos curtos de grandes clássicos russos lidos por Rui Manuel Amaral. Vale conferir:


Carlos Felipe Moisés escreve sobre Ensaios Radioativos

Caros, o poeta e teórico Carlos Felipe Moisés escreveu uma bela resenha sobre o livro Ensaios Radioativos. Para acessá-la, clique aqui.

Gostaria também de informar que os Ensaios foram um sucesso de venda (pelo menos no que tange a uma pequena editora) e, como já esgotou, sairá uma segunda edição no início do ano que vem. Agradeço aos leitores e amigos que contribuíram para o seu sucesso. Grande abraço.

Outros pontos de vista

Se Mary Poppins fosse um filme de terror:



E se o iluminado fosse uma comédia romântica:

David Lynch ou a arte de construir estradas com ruínas

Por Vladimir Safatle

“Você nunca me terá.” Ela diz esta frase depois de transar com ele na frente de um carro estacionado com faróis ligados. Depois, ela entra em uma barraca de beira de estrada para desaparecer de uma vez por todas. Ele muda de persona e a segue até a barraca. Mas, lá, só encontra um homem com maquiagem de quem acabou de sair de filmes de terror série B. Um homem com câmera em punho que grita: “Afinal qual é o seu nome?”. Esta não é uma pergunta tão fácil quanto poderia parecer. Como veremos, sua dificuldade vem da frase que ainda ressoa na cabeça deste personagem que não pode responder pelo seu nome: “Você nunca me terá”. Ela talvez nos dirá porque só um tempo como o nosso poderia produzir um filme como A Estrada Perdida.

Diz-se normalmente que Lynch transformou-se em um cineasta obscuro, destes que amam narrativas que se dissolvem em um emaranhado de labirintos e falsas pistas. Mas podemos dizer também que é alguém que deixa muito claras suas intenções. Por exemplo, em um certo sentido, a história de A Estrada Perdida é banal. Ela é dividida em duas.

Na primeira, o saxofonista Fred Madison assassina sua mulher misteriosa, Renée. Entre os dois, pairava uma atmosfera de silêncio catastrófico e traição feminina. Fred não lembra do assassinato. Ele só tomou conhecimento através de um vídeo feito por alguém que entrou em sua casa e o filmou no momento em que estava de joelhos, no quarto, ao lado do corpo estraçalhado da mulher.

Na segunda parte, o mecânico Pete Dayton começa a ter um caso com Alice: amante de Mr. Eddy/Dick Laurent, gângster-produtor de filmes pornográficos. Laurent descobre o caso, e Alice convence o mecânico a fazer um assalto e fugir com ela em direção ao deserto. Lá, no meio do deserto, ela desaparece depois de transar com Pete.

O material narrativo é banal, mas a composição não. Toda a peculiaridade de A Estrada Perdida está nesta tensão entre elementos apodrecidos da linguagem cinematográfica e processos de composição capazes de provocar estranhamento diante daquilo que era muito visto. São eles que vão tecendo a costura entre as duas histórias no interior do filme e vão duplicando detalhes e personagens (Fred Madison/Peter Dayton; Renée/Alice), criando uma espécie de banda de Moebius vertiginosa na qual o verso transforma-se necessariamente no reverso.

Mas a complexidade das duplicações de Lynch é relativa, pois submete-se a um modelo geral de organização. Neste sentido, o título, A Estrada Perdida, não poderia ser mais didático e indicativo. Ele remete necessariamente a um “road movie”, mas sem esquecer de lembrar que se trata de um “road movie” fracassado : história de alguém que se perdeu no meio do caminho.

Aqui, já estamos diante de um dos elementos centrais dos filmes de Lynch: a estrada. Ela não está presente apenas em A Estrada Perdida, de 1997. Coração Selvagem e Uma História Real¸ só para ficar entre os mais evidentes, são filmes estruturados como um “road movie”. Mullholand Drive, que foi apresentado como a continuação de nosso filme, também é algo como um “road movie”, e não é por acaso que placas de trânsito, indicações de ruas e outros sinais de deslocamento aparecem de maneira tão recorrente no filme.

Mas aqui vale a pergunta: o que é exatamente um “road movie”? Podemos dizer que ele é, antes de qualquer coisa, o sucedâneo contemporâneo dos antigos romances de formação. Nós seguiremos alguém que irá fazer uma viagem e chegará ao seu destino, mas neste trajeto ele irá se deparar com umacontecimento que destruirá seu antigo e limitado horizonte de compreensão.

Dessa destruição, ele sairá transformado em outra pessoa. Depois da viagem, ele encontrará o verdadeiro ponto de chegada e nunca mais será o mesmo, ele mudará de identidade. Dito isto, A Estrada Perdida é o “road movie” perfeito ou, talvez, o único “road movie” sobre a impossibilidade de um “road movie”.

Sendo A Estrada Perdida um “road movie” faremos três perguntas centrais: qual é o ponto de chegada? Qual é o acontecimento? Que impetus move o trajeto ? Elas vão nos permitir encontrar os pontos fixos que estruturam a narrativa do filme.

Comecemos pela primeira pergunta.

Dick Laurent is dead

“Dick Laurent is dead.” Quando Fred Madison ouvir esta frase no interfone de sua casa, o filme começará. Quem a pronunciou, ninguém sabe. Durante quase todo o filme este será um enunciado sem enunciador, uma voz sem corpo. Mas essa frase será uma espécie de fórmula capaz de organizar o sentido da ação cinematográfica, tal como o imperativo “The slepper must awake” repetido “ad infinitum” em Duna, outro filme de Lynch.

Quem é Dick Laurent? Isto nos só saberemos na segunda parte do filme: um gângster, empresário da indústria pornográfica e que nutre uma relação “paternal” com Pete, aquele que ocupará o lugar de Fred Madison. Figura, ao mesmo tempo, paternal e obscena: essa conjunção não pode nos deixar indiferentes. Ela aparece em vários filmes de Lynch. Suas figuras de autoridade sempre estão no exato ponto onde a enunciação da Lei e assunção do gozo se cruzam.

Nesse sentido, nada mais emblemático do que a cena na qual Dick Laurent, dirigindo seu carro na velocidade definida pela Lei, é ultrapassado por um motorista apressadinho. A punição virá sem perdão: o motorista será jogado fora da estrada, arrancado de seu carro, colocado de joelhos com uma arma apontada para sua cabeça, enquanto Laurent espanca-o gritando que ele é um irresponsável por correr daquele jeito, que ele deveria aprender a respeitar a Lei, já que 30% dos acidentes de estrada acontecem em situações como aquela. A enunciação da Lei aparece com forma suprema de realização de um gozo sádico.

Matar Dick Laurent é, pois, uma forma de procurar suspender esta Lei que esconde um gozo obsceno em suas entrelinhas. Desejo de revelação que encontramos em outros filmes de Lynch. O que é a história do seriado de televisão Twin Peaks, por exemplo, a não ser o processo aparentemente infinito de dissolução da imagem de ordem e virtude de uma pequena cidade em um emaranhado de modos inconfessáveis de gozo? Como se o verdadeiro desejo de Lynch fosse desvelar a máquina desejante que se esconde por trás das formações da Lei. Um pouco como Joseph K., o herói de O Processo, que, ao entrar no tribunal e enfim conseguir folhear as páginas do livro da Lei, só encontra desenhos pornográficos.

“Dick Laurent is dead.” Quando essa frase for repetida, quando o mesmo Fred Madison enunciá-la em seu interfone e “falar a si mesmo”, o filme terá terminado. O trajeto estará completo: a mensagem parece encontrar um enunciador. Fred parece ter feito aquilo que ele estava destinado a fazer, ter ocupado o lugar que, desde o início, era seu; mesmo que ele não o soubesse.

Mas, talvez, “completo” não seja a palavra exata, pois alguma inadequação radical continua impelindo o personagem a continuar em sua estrada perdida. Mesmo depois de Dick Laurent morto, Fred Madison não realizou plenamente seu destino.

Assim, se o tema clássico de um “road movie” consiste em mostrar o trajeto que um sujeito deve atravessar para “tornar-se o que (se) é” -para usar uma expressão de Nietzsche-, A Estrada Perdida, assumindo a enunciação de seu verdadeiro caminho, conta-nos a história desse trajeto bloqueado que vai de si a si mesmo, desta impossibilidade da voz autônoma que ressoa como um destino assumir o corpo escolhido para encarná-lo. Como já disse, história de um processo de formação, ou do fracasso dele.

As mulheres de David Lynch

Sendo assim, devemos nos perguntar pelas causas desse fracasso, o que nos coloca à cata do acontecimento fundamental que faz com que Fred Madison perca o mapa que poderia guiá-lo no seu caminho. É verdade que o filme parece, de uma certa forma, começar tarde demais. Desde o início, o clima é pesado, os diálogos e olhares que circulam entre Fred e Renée, sua mulher, são secos e difíceis; tem-se a impressão de que algo de aterrador já aconteceu. O acontecimento parece já ter tido lugar.

Mas, se olharmos para os outros filmes de Lynch, encontraremos uma indicação preciosa que poderá nos guiar: todos os acontecimentos acontecem pelas mãos de mulheres. Em Veludo Azul, o trajeto de Jeffrey em direção à uma experiência capaz de romper com as certezas menores de seu mundo estável de cidade pacata do interior norte-americano será impulsionado pelo encontro com Dorothy Vallens, uma misteriosa cantora de cabaré que não deixa de nos remeter a mesma constelação semântica de fragilidade e sedução de Renée/Alice.

Seu caminho vai levá-lo ao quarto de Dorothy, onde, escondido dentro de um armário, ele descobre o ritual masoquista e incestuoso que a liga a Frank: um bandido violento e impotente. Ao se deparar com essa negatividade que marca tudo o que é da ordem do sexual, Jeffrey poderá completar seu destino. Sexo aparece aqui como lugar de verdade.

Como ele aparecerá mais tarde em Mullholand Drive, já que será apenas depois que a jovial e deslumbrada Betty transar com Rita (mais um destes personagens femininos marcados pelo mistério, na linhagem Dorothy Vallens - Renée/Alice ) que seu mundo de sonhos dará lugar a um Teatro de Ilusões que, para ela, terá o valor de um Teatro de Horror: única forma de uma experiência da ordem do real poderá se fazer sentir.

Em A Estrada Perdida, o procedimento não é diferente. Lembremos primeiro que a razão pela qual Dick Laurent deve morrer é simples: ele está entre Pete e Alice (mais tarde ele aparecerá transando com Renée). Ele priva Pete do gozo de Alice e matá-lo é a única forma alcançá-la. Mas esta questão ligada à privação do gozo parece perpassar alguns momentos centrais de A Estrada Perdida.

Assim, na primeira parte do filme, vemos um Fred Madison atônito e suado tentando transar com Renée. As imagens são em câmara lenta para sublinhar o corpo como carne. Infelizmente, o resultado final será alguns tapinhas nas costas e um consolador: “It’s ok, it’s ok”. O chão se abre entre Fred e o gozo de seu objeto de desejo. Uma fenda tão grande quanto aquela que o separa definitivamente de si mesmo.

Mas esse não parece ser o problema de Pete. Ao contrário, como dirá o policial escalado para vigiá-lo: “Onde ele consegue arrumar tantas bucetas?”. Sim, ao contrário de Fred, Pete sabe como fazer. Ele sabe tão bem que acaba se apaixonando por aquela que é a mulher reduzida a sua mera condição instrumental: a atriz de filme pornográfico. Mulher reduzida à condição de suporte imaginário de fetiches. Só que esta mulher reduzida à sua própria imagem, sempre disponível em qualquer locadora e “prêt-à-jouir” será exatamente aquela que dirá: “Você nunca me terá”. Pete apaixonou-se por uma imagem que se esvai no deserto, assim como Fred não sabe o que fazer com a carne de mulher que ele tem nas mãos. Todas as duas os levaram para uma estrada perdida.

Nesse sentido, matar Dick Laurent nunca poderia levar Fred/Pete a alcançar aquilo que daria um pouco de estabilidade à sua procura. Pois este objeto é essencialmente vaporoso, trompe l’oeil feito de imagens e projeções. A Estrada Perdida conta assim a história da descoberta de quão opaco são os objetos aos quais o desejo teima em se vincular. Descoberta que nos leva a um encontro traumático com a impossibilidade de terminar o trajeto da viagem. Um encontro traumático com um destino que só pode se realizar como queda.

Leis que deveriam vingar

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS REVISTAS LITERÁRIAS ATUAIS

Estado de Minas, 5 de setembro, caderno Pensar

Márcio-André

Se a realidade se realiza nos elementos que a constituem, devemos considerar as revistas de literatura, para além de um complemento, como parte fundadora da realidade literária contemporânea, tão importante quanto as editoras, os movimentos estéticos, os cadernos culturais e as políticas pedagógicas globais. Entretanto, frente a certas carências, educacionais sobretudo, as revistas, todas articuladas de forma independente, são obrigadas a desempenhar papel também na formação do publico leitor em uma realidade onde literatura tornou-se, já de antemão, algo irreal. O problema é que, se por um lado estamos na vanguarda de propostas estéticas – e o papel das revistas é servir-lhes de “manifesto” –, por outro, elas padecem no duplo papel de ensinar sobre tais estéticas. A ironia é que, nessa duplicidade, não conseguem ser nem uma coisa nem outra e ficam assim, tentando encontrar um caminho, por vezes ineficaz, até o leitor.

Ainda que pouco visíveis, a variedade é grande. Revistas como Sibila, Confraria, Coyote, Inimigo Rumor, Polichinello, Babel, Agulha, Germina, Zunái, entre outras, dividem espaço na rede e nas livrarias, com posturas e tendências particulares. Mas a despeito da diversidade, elas poderiam ser reduzidas a duas grandes famílias de características que se anulam. A primeira é aquela de revistas com propostas mais didáticas, cujo empenho está em servir como vitrine às diversas posturas literárias atuantes. Mais democratizantes, tornam-se pouco eficazes por não conseguirem chegar ao grande público, sobretudo devido a falta de fomento e de estrutura profissional, resistindo enquanto revistas “especializadas”. A segunda é a das revistas que se assumem (mesmo que veladamente) como a representante de um grupo e com isso cria uma rede de relações e influências que se autofomenta, lançando mão dessa estratégia em prol da perpetuação de seus projetos e do consequente fechamento do canal (e aqui relembro o depoimento de um editor que afirmou, em entrevista, não conhecer nenhum periódico contemporâneo ao seu que merecesse ser citado, além daquele produzido por remanescestes de sua própria publicação). Autocentradas como as revistas de vanguarda do Séc XX, perdem-se na incoerência de não ter como base, entretanto, um projeto estético sólido que a justifique (como tinha, por exemplo, a Revista Noigandres na década de 50), deixando de representar um movimento para congregar uma “panela”. O resultado nos dois casos é o mesmo: não há uma efetiva troca com o leitor e tudo o que se vincula ali se perde na especialização.

Não de hoje, a literatura vem sofrendo do mal da guetização. Em parte por uma inadequação de alguns de seus pressupostos clássicos ao advento da cultura de massa, onde, enquanto “forma inadequada”, se sujeita produto a ser consumido por uma “tribo”. E em parte por conta dos próprios escritores que se deixam cair nos discursos mais rasos de qualquer que seja a defesa assumida. Num momento em que várias éthos temporais se encontram, é natural que nenhum deles se cumpra por inteiro. As revistas, por sua vez, nessa indecisão ética, manifestam um vício comum entre elas: o de focar sua atenção nos produtores, nunca nos consumidores (e aqui, consumidor e produtor em nada se relaciona com a lógica do capital). Ora, não há literatura sem leitores, e cada autor, teoricamente, deveria também ser um. Mas isso tem sido ignorado insistentemente e as revistas, como um todo, escondem por trás da virtude do afastamento e do discurso do preciosismo, uma postura conservadora e elitista, onde se produz edições com escritores mais interessados que interessantes. Na verdade o que falta é pesquisa e atenção às edições irmãs. Não encontramos sequer uma listagem das revistas existentes, nem mesmo no Wikipédia. Não há um orgão regulamentador, qualquer que seja, tamanho o desinteresse em congregar.

Claro que não se defende aqui uma planificação esterilizante ou um regramento sem sentido, mas uma postura que fuja às segregações e reinsira o leitor no espaço cênico da literatura. É para isso que as revistas deveriam servir: ao invés de reproduzir os males do ambiente literário contemporâneo, criar alternativas viáveis. E quando propostas individuais vazias se transformam em paróquias, é preciso apelar a uma coletividade sólida. Por mais enriquecedor que seja uma variedade de discursos, talvez seja a hora das revistas se unirem em prol de um publicação, paralela a todas elas, de grande tiragem, a fim de movimentar um público (leitor, não consumidor de livro) e uma maior circulação do que se tem produzido. Um periódico neutro que, unindo as pontas das duas categorias citadas acima, pudesse acompanhar com responsabilidade – ainda que pelo viés de um jornalísmo não meramente informativo – tudo o que se tem produzido. Talvez assim, visando uma literatura para o futuro, para os leitores, o terreno se fertilize e surjam novas propostas estéticas prontas a fundar suas revistas individualmente fortes. Mas será que os editores estão interessados?

Semana que vem!

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