Dois poemas de João Rasteiro


DEZEMBRO

Tem sol adentro tem a voz semente,
como se a sílaba pudesse desassombrar a luz
o cheiro espesso e biófilo das coisas esquecidas
bocas como abóbadas sitiando as luminárias
no eixo do relâmpago os rebentos viçosos
perfumes de todos os bálsamos de Jerusalém
vozes em silício dentro do rosto das águas
a paixão do fogo numa última saudação ao sol.


SEI QUE O SILÊNCIO MORDE

Sei que o silêncio morde
no agonismo da pele a pele
agride a garganta
nos nódulos dos pulmões
os pulmões desafiam o ar
nas margens do sangue,

no branco imenso das sílabas
há só um infinito espaço branco
no rizoma gélido de silêncios
que perfuram os dedos como anzóis,

a geometria da morte sob as pedras.

João Vário

Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Fim e reconhecimento, e não sofrendo mais do que o tempo concede
fim de novo e reconhecimento de novo,
e tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
criminosissimamente crime,
quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
e sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
são os desígnios da medida e, divididos
em dois por eles, com eles indo, se por eles
ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
de indagar que vamos morrer e, um dia, se
o tempo for deles e a memória, de outros,
havemos de ser úteis como mortos há muito,
sem que a causa, o delírio, a designação,
o julgamento nossa medida abandonem,
dividida em duas por eles, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.

Sistema de aço

Partitura de aço, não ossos.

Para cada vida, um aparelho de imortalidade:
o ofício.

***

Eu comeria deus todo dia,
no olho das plantas; as plantas.

Poca Sombra não conhece a folha verde:
esquece que um dragão se cria na pilha de folhas secas:
avermelhando.

Ela sempre esquece novos pensamentos.

***

[O pássaro criou fios de ovos para chocar.
Não nasceu ovo; mas deu à Lua um deus]
— O pássaro visto por olhos de um. Secou.

Poca Sombra não mais se sacrifica.

Poca Sombra chora
e a noite limpa seus olhos com desejos;
agora volta a ter destino. Já fadada a viver sem nome,
na terra dos sem nome.

— Abandona Poca Sombra e cristaliza-se mãe.

***

Ninguém era de saber dela, nem antes, nem agora.
Todo seu movimento de eregir-se ficou para deus,
que passou a dever-lhe um nome.

Sem ter seu nome de volta,
comeu os dentes de leite de seu filho,
e virou Filho.


(Poemas de Karinna Gulias, descaradamente pirateados do blog do Cláudio Daniel.)

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