Luis de Narváez: "Paseábase el rey moro"

Marta Rodrigo (Soprano) & Andreas Martin (Vihuela)



Paseábase el rey moro
por la ciudad de Granada;
cartas le fueron venidas
como Alhama era ganada.
¡Ay, mi Alhama!
Mandó tocar sus trompetas
sus añafiles de plata
porque le oigan sus moriscos
los de la vega y Granada.
¡Ay, mi Alhama!

Making of Indivisible at Idanha-a-Velha

Barcelos

Barcelos foi rápido e intenso. Entre oficinas, a última apresentação de Indivisível na Europa, despedidas de amigos (assim como a aquisição de novos amigos), deixo algumas fotos desse nosso fim de etapa:

Essa foto da Karinna foi tirada ainda em Monsanto, em nosso último dia na casa.

Um ângulo externo da casa (sou eu lá na janela)

Aqui já foi o Workshop de poesia sonora na escola secundária em Barcelos. É muito bom colocar a meninada para fazer barulho...

Esses dois aí com a Karinna são o fantástico cinéfilo Artur e o "decorador" Eduardo, responsáveis pela minha ida a Barcelos. Esses aí são a prova viva de que é possível, em pouco tempo, se fazer muitos bons amigos.

A preparação da apresentação no Cineclube Zoom... depois, disponibilizo o vídeo para a galera.

INDIVISÍVEL agora em Barcelos - Portugal

A Zoom-Associação Cultural de Barcelos convida:
20 de Abril - 21h30 - Biblioteca Municipal de Barcelos
Entrada Livre

in{di}vi.sí[vel

Poema-polifonia de Márcio-André para vozes, violino, penduricalhos e processamento electrónico.
Poetas Convidados: João Miguel Henriques, Bruno Santos, Karinna Gulias.
Vídeos: Paula Gaitán.
Apresentação do livro Ensaios Radioativos
Às 10:00 decorrerá na Biblioteca da Escola Secundária Alcaides de Faria - Barcelos, um workshop de poesia sonora ministrado pelo Márcio-André.


Comentário de Boaventura de Sousa Santos:
Márcio-André é, pois, uma voz nova que vive intensamente a violência da cultura, desde o gregos até aos nossos dias, sempre na esperança de nada ser irreversível por nunca ter começado. (...) Este poeta explode dentro de nós com uma doçura indescritível. A sua poesia é uma das mais notáveis da sua geração.

Comentário de Walter Salles:
De uma originalidade e inventividade luminosas, Intradoxos é a prova de que a poesia brasileira continua a dar sinais de uma surpreendente vitalidade.Ana Cristina César se foi, mas não estamos sós. Márcio-André é uma das vozes mais brilhantes de uma nova jovem geração de artistas brasileiros.


organização:
Zoom- Associação Cultural de Barcelos
ESAF- Escola Secundária Alcaides de Faria
Câmara Municipal de Barcelos


Mais informações aqui

Em Londres

Essa foi uma noite realmente inacreditável.

Revista Polichinelo #10


Participam desta edição

[ Daniel Lins ]- Fortaleza
[ Victor Sosa ] - México
[ Juliano Pessanha ] - São Paulo
[ Luís Serguilha ] - Lisboa
[ Giselda Leirner ] - São Paulo
[ Virna Teixeira ] - São Paulo
[ Ney Ferraz Paiva ] Tocantins
[ Efraín Rodríguez Santana ] - Cuba
[ Antônio Moura ] - Belém
[ Lúcia Castello Branco ] Belo Horizonte
[ Alberto Pucheu ] - Rio de Janeiro
[ Vicente Franz Cecim ] - Belém
[ Maria Inês de Almeida ] - Belo Horizonte
[ Ieda Magri ] - Rio de Janeiro
[ Márcio-André ] - Rio de Janeiero
[ Flávio Boaventura ] - Belo Horizonte
[ Denny Yang ] - China
[ Carlos Emilio Correia Lima ] - Fortaleza
[ Beatriz Bajo ] - Londrina
[ Goiamérico Felício ] - Goiânia
[ Victor Paes ] - Rio de Janeiro
[ Nilson Oliveira] - Belém

PROGRAMAÇÃO:

BRASÍLIA - Data: 23 de Abril, às 19h.
CONVERSAÇÕES ENTRE NILSON OLIVEIRA E O POETA JORGE AMÂNCIO
Local: T-Bone: SCLN 312 Bl B Lj 27 Brasília DF
.
GOIÂNIA - Data: 24 de Abril, às 14h30.
EXIBIÇÃO DO FILME MAURICE BLANCHOT,
seguido de Palestra de Nilson Oliveira.
Local: CINE UFG (Faculdade de Letras/Campus II)
.
BELO HORIZONTE - Data: 29 de Abril, às 19:30.
CONVERSAÇÕES: MAURICE BLANCHOT E A LITERATURA
Com: Lúcia Castello Branco / Flávio Boaventura /André QueirozLocal: Fundação Gregório Baremblitt / 
Instituto Felix GuattariRua Herval, 267 - Bairro Serra - Belo Horizonte.
.
BELÉM Dia 08 de Maio, às 17h.
Local: Casa das 11 Janelas
LANÇAMENTOS DAS REVISTAS POLICHINELLO & NÃO-LUGAR
Recital com Antônio Moura, Paulo Vieira, Luizan Pinheiro e Renato Torres.
Palestra do Filosofo Daniel Lins: Por uma Escrita Rizomatica

Coventry

Nossa passagem por Coventry, ao lado do poeta e editor Jonathan Morley, foi mais ou menos assim:

Jonathan e Karinna, na torre da catedral de Coventry

Jonathan me explicando alguma coisa pitoresca da cidade

Um almoço na casa do simpático artista plástico Colin Dick e sua esposa Delia

O Tin Angel, onde se deu a minha apresentação

A platéia

Jonathan Morley

Jonathan Morley é um grande amigo poeta do Reino Unido. Foi ele quem, com sua simpatia, afetividade e energia, nos recebeu (Karinna e eu) em Coventry. Esta foto (onde ele faz simultaneamente divulgação da parede oleosa e dos Ensaios Radioativos : ) foi tirada em nosso último encontro, na semana passada. Ele lançou recentemente pela Heaventree press um livro-CD, Backra Man (do qual reproduzo um poema abaixo). Em breve, falarei mais de seu trabalho.

For Lee Miller

In the bleak washroom,
its motel-cramp, your elf’s face
cynical, tired. The metronome
poised below your eyes, a demoiselle
out of Picasso, the glow dimmed
that has flooded the darkrooms
of so many hearts, luminous one.
The little Fuhrer watches you bathe
from his frame on the bath’s corner, fist
at his hip, chest thrust out;
often he must have stood
to attention in the shower,
practising faces, the pipes applauding
DA DA dada dada DAA DAA dada dada –
you’ll write for Vogue that the place is
well-stocked with wines and whiskeys,
for a teetotaller: Berchtesgarten.
Heated walls, you wired back in June
from Cologne, and the bloody, clawed handmarks
of the roasting victims baked like the designs
on pottery. The inhabitants must have known.
Now steam mars his pristine grey tiles:
a ghost of fingerprints near the tap.
Pierrot completes the set.
Facing him, on a polished table
a foot-high nude stroking her stone-blonde hair,
elbow mimicking your elbow’s gesture
for washing a collarbone, alabaster.
And do your triptych of faces consciously echo
that threesome you described as the hangover
to a great party you just missed in Leipzig:
in one of the offices, a grey-haired man
at his desk with head bowed
on crossed hands; sprawled in a chair
his faded wife, a stitch of blood down her chin;
dusty nurse-daughter with pretty teeth
stretched on the sofa in dreamless sleep?
that SS guard you snapped, his face
moon-white beneath the glass canal?
Her breasts and stomach are waxen, bulge
like yours in those maddening photographs
taken by your Pygmalion father
when you were twenty-one.
Your boots queue like men:
fecit Hitler’s bathmat with the Dachau mu

FestiPoa Literária


De 22 a 25 de abril acontecerá em Porto Alegre (RS) a segunda edição da FestiPoa Literária, uma grande festa dedicada à literatura. Neste ano, o evento será realizado nas livrarias Palavraria (Av. Vasco da Gama, 165), Letras & Cia (Av. Osvaldo Aranha, 444), no Espaço Cultural Casa dos Bancários (rua Gen.Câmara, 424), Cinebancários e Instituto Cultural Braileiro Norte-americano. Estarei lá com meu violino eletrônico e meu macbook acústico. Confiram a programação:

DIA 22/04- QUARTA-FEIRA (ABERTURA)

LETRAS & CIA
17h30 LUIS FERNANDO VERISSIMO (escritor homenageado) conversa com REGINALDO PUJOL FILHO, LEONARDO MARONA e FABRÍCIO CARPINEJAR sobre humor, poesia e crônica 
19h SESSÃO DE AUTÓGRAFOS – Lançamento da antologia, “O melhor da festa”, com os autores que participam da antologia

IN SANO PUB
19h30 Verbalada Portátil vol. 3 e Cabaré do Verbo Pocket (Adriano Pessoa, Projeto Floco, Núbia Quintana, Sandro Marques e Telma Scherer)
Shows com as bandas 2x4 e Sexteto Blazz

22h Convidados da FestiPoa e do Cabaré do Verbo Pocket participam da “Maratona Literária” (Centro Municipal de Cultura)*

DIA 23 – QUINTA-FEIRA

PALAVRARIA
16h “O fim do livro?” MARCELO SPALDING conversa com CÁSSIO PANTALEONI, RUBEM PENZ e PAULO TEDESCO
17h30 “Muito prazer: Proesia” LAÍS CHAFFE, RODRIGO ROSP, TELMA SCHERER e RAFAEL JACÓBSEN conversam sobre poesia e prosa erótica
19h “Construção das Canções (Letra & Música)” CLAUDIO LEVITAN conversa com NELSON COELHO DE CASTRO e ARTHUR DE FARIA

A TOCA DA CORUJA
19h Lançamento de “Minicontos e muito menos” (de Laís Chaffe e Marcelo Spalding, ed. Casa Verde, 2009) e exposição de ilustrações criadas para o livro por Alexandre Oliveira, Bier e Guilherme Moojen


DIA 24 – SEXTA-FEIRA

LETRAS & CIA
16h “O prazer do poema” ANA MARIANO, SIDNEI SCHNEIDER, MARIA REZENDE e LUIS PIMENTEL falam sobre poesia e o prazer da escrita e da leitura de poesia
Após, lançamento dos livros “O grande homem mais ou menos” (Luis Pimentel) e “Bendita Palavra” (Maria Rezende), “Pequenas biografias não autorizadas” (Leonardo Marona) e “Ensaios radioativos” (Márcio-André)

ESPAÇO CULTURAL CASA DOS BANCÁRIOS (Auditórios 2 e 3)
Das 13 às 18h - Mostra de Poesia visual
17h “Poesia visual contemporânea: dilemas e delitos” debate com os poetas JORGE BUCKSDRICKER e DIEGO PETRARCA

CINEBANCÁRIOS
18h30 “A poesia de WALY SALOMÃO” Bate-papo e leituras de poemas de WALY SALOMÃO, com DIEGO PETRARCA, RICARDO SILVESTRIN e JOSÉ ANTONIO SILVA
Após, exibição de “Pan-Cinema Permanente” (documentário sobre Waly Salomão)

LETRAS & CIA
18h30 “Desamparos sociais e individuais e a importância da literatura na sociedade contemporânea” ALTAIR MARTINS, ÍTALO OGLIARI, LUIS AUGUSTO FISCHER, MÁRCIA IVANA LIMA E SILVA e LEANDRO DÓRO (mediação)
19h30 “Conto – a arte da brevessência” OLAVO AMARAL, MONIQUE REVILLION, JOSÉ ANTONIO SILVA e CAROL TEIXEIRA (mediação)

SINTRAJUFE
20h Verbalada Portátil Vol.4 (Maria Rezende, Ítalo Ogliari, Sandro Dornelles, Sidnei Schneider e Leandro Dóro), Cabaré do Verbo Pocket (Grupo Trilho, Diego Petrarca e Lorenzo Ribas) e show com a banda os PoETs.


DIA 25 – SÁBADO

LETRAS & CIA
10h “A poesia da canção: poema e letra de música infanto-juvenis” - Debate com GLÁUCIA DE SOUZA, JORGE HERRMANN, CLAUDIO LEVITAN e CAIO RITER (mediador)

INSTITUTO CULTURAL BRASILEIRO NORTE-AMERICANO (MAP CAFÉ)
14h30 “Poesia na escola” debate com LUIS PIMENTEL, MÁRCIO-ANDRÉ e LUIZ HORÁCIO.
15h30 Espetáculo de poesia com o Grupo Rumor (coordenação: TELMA SCHERER)

PALAVRARIA
19h “Contestado – o poder da fé” - debate com WALMOR SANTOS, VOLNYR SANTOS e CARLOS ANDRÉ MOREIRA

OCIDENTE - OX
18h FESTA DE ENCERRAMENTO (FESTIPOA LITERÁRIA + CORREDOR CULTURAL)
Participação de artistas convidados do projeto Corredor Cultural e FestiPoa Literária (Fapo e os Humanóides) e participação especial do Cabaré do Verbo Pocket (As Marias da Silva, Dionísius, Scott e Marvin, Ônibus Azul, Antonio Xerxenesky, Rodrigo Rosp, Reginaldo Pujol Filho)

Deu no Jornal

No último sábado, saiu no JB uma resenha sobre o meu Ensaios Radioativos. O texto, escrito pelo poeta Marcos Pasche, vai abaixo:


QUANDO O RECORTE É O TODO
Das casas comuns às nuvens, ensaios de Márcio-André contaminam-se pela Vida

Por maior que seja a sua presença na variada fisionomia ideológica brasileira (ou talvez por isso mesmo), a academia é alvo de constantes críticas, seja por parte de intelectuais que não se vinculam a ela, seja por muitos de seus ícones. As reprovações mais constantes (algumas generalizantes, é verdade) direcionam-se ao caráter fechado das universidades, seja pela lógica departamental que fez da especialização sinônimo de alienação, seja pelo divórcio entre as "vidas" de dentro e de fora do campus.

Nesse sentido, a produção bibliográfica acadêmica, originada mais por exigências institucionais do que por questionamentos de seus autores, apresenta, para o bem e para o mal, um determinado recorte temático com o intuito de explicar a realidade. É o caso, entre as ciências humanas, de estudos geográficos, historicistas, sociológicos, literários etc. Mas não é o caso de Ensaios radioativos, de Márcio-André, jovem poeta-filósofo proveniente da Faculdade de Letras da UFRJ.

Já em sua primeira parte, "A permanência das coisas", Márcio-André, relatando uma viagem feita à cidade de Pripyat (onde houve o acidente nuclear de Chernobyl), desenvolve a ideia de "contaminação", unindo um conceito teórico a uma vontade de congregar todos os fenômenos da existência humana, visto que a Vida é um bloco indivisível de infinitas figurações. Lembrando Heráclito (ou contaminado por ele), Márcio esclarece: "A palavra ‘contaminação' vai ao encontro mesmo da física das partículas, ao mostrar que tudo é uma só coisa".

Adiante, o ensaísta abordará a diferença entre contaminação e influência, atestando o caráter amplo da primeira, em contraste com a segunda, que é segregadora e denota certa hierarquia nociva à essência artística. Para a explicação, ele se vale de um insólito exemplo: "Não creio ser absurdo que uma obra antiga como Os Lusíadas possa ser contaminada por uma moderna como, por exemplo, a de Mário de Andrade".

Márcio-André não se põe numa torre de marfim, e é por isso que, transitando entre a obra de Erza Pound e o programa Pânico na TV, passando pelo pensamento de Martim Heidegger e o aspecto oracular do Google, ele abraça com seu livro as casas do subúrbio (sem se limitar a descrevê-las), no capítulo "Proposta para se pensar as nuvens". Mais do que uma manifestação provinciana (da qual o autor já foi acusado), tais páginas proclamam o amor pelas coisas ordinárias, afastando-as do mero enquadramento mercadológico que as torna instantaneamente perecíveis: "Aquele que menospreza as coisas não é ninguém mais que aquele que acredita na soberania do sujeito num mundo que subsiste para seu consumo".

Compõem o livro ainda entrevistas concedidas pelo autor e relatos de algumas viagens suas à Europa. Do início ao fim da obra (desprovida da dureza científica da tese acadêmica, com notas de rodapé e afins), estampa-se o desejo de que o homem entre em conexão com a vida em todas as suas feições e componentes, ao mesmo tempo em que se mostra o quanto é nocivo o hábito comum da segregação.

Os Ensaios Radioativos de Márcio-André nos apontam o cristalino e lutulento lago do existir, convidando-nos ao mergulho. E não há nisso nenhuma incoerência travestida de paradoxo, pois como ele mesmo diz, "paradoxo é uma palavra inventada para suprir nossa incapacidade de entender o absurdo do mundo".

Poesia Sonora em Idanha-a-Velha

A apresentação de ontem, na Sé-Catedral de Idanha-a-Velha, foi qualquer coisa de fenomenal. A experiência de apresentar uma performance num templo romano-árabe-visigótico-cristão, com cerca de dois mil anos de idade, é indescritível. Saí de lá leve, com a sensação de que alguma coisa que não esperava fez sentido. Nunca estive tão satisfeito e realizado com uma apresentação minha. Enquanto o vídeo não fica pronto, compartilho algumas fotos. Espero que dê para ter uma ideia da beleza que foi o espetáculo e do trabalho impecável do iluminador Nuno Capelo, com projeções de Paula Gaitán e da produtora Maria do Carmo Barroso. No cast de poetas: João Miguel Henriques, Karinna Gulias e Bruno santos.













Dia movimentado

Hoje foi um dia atípico, aqui na beira alta de Monsanto. Entre outras coisas, dei uma entrevista a Agência Lusa e recebi uma visita do vereador de Idanha-a-Nova, Armindo Moreira. Foi um dia giro (como dizem os portugueses) e bastante movimentado.

Gravando a entrevista

Com o vereador

Senhor António ao lado do cartaz da minha apresentação

A senhora do único mercadinho da aldeia

Ana. Boa de legumes e de papo

Egitânia

Fiz esse vídeo numa viagem de Lisboa a Coimbra e depois mixei com o poema sonoro Egitânia, composto e gravado em Monsanto (Castelo Branco). O resultado ficou interessante. Para a edição, contei com a ajuda do meu jovem amigo Francisco Norega. Aproveitem.

1 de abril

Neste 1 de Abril, dei uma Conferência sobre interdisciplinaridade no Instituto de Língua e Literatura Portuguesa, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O convite veio por parte do simpático chefe do instituto João Nuno Corrêa-Cardoso, que nos recebeu - Karinna e eu - com uma especial delicadeza e simpatia. O evento se chamava "Encontro com o poeta Márcio-André" e na plateia havia até uma freira. Aproveitando o fato de ser o dia internacional da mentira, li um texto (terminado horas antes da conferência) chamado  "A didática pelos quanta" (fragmento mais abaixo), que debatia, entre outras coisas, a falsa separação entre ficção realidade.

Mas o mais bacana de tudo foi poder reencontrar por lá o meu velho amigo Boaventura de Sousa Santos, grande sociólogo e poeta, que não via há mais de dois anos.


A didática pelos Quanta (fragmento)
Márcio-André

"Obviamente, a percepção pré-socrática de que tudo é um (Heráclito), na qual encontramos um grande amparo para nossa didática, não infere a eliminação das diferenças, mas unicamente a radicalização do equilíbrio entre o que é um e outro. Pois que numa didática pelos quanta, as diferenças não são excludentes e as identidades não são niveladoras. As diversas realidades são concomitantes, realidades opostas e contraditórias coabitam, consubstanciam e determinam o real, não por eliminação ou assimilação (o que é próprio de nossa tradição), mas em suas diferenças radicais, tal como a complementaridade, para não enlouquecer diante das partículas, aceita que informações excludentes entre si sejam concomitantemente verdadeiras, sendo, o confronto dessas, a única forma possível de descrever o “objeto” observado. Vale ressaltar, entretanto, que, no âmbito da física, a dualidade onda/partícula determina que a luz se defina – onda ou partícula – a partir do instrumento que se escolhe pra observá-la, unicamente por uma questão narrativa contida na própria natureza de nossos clássicos “instrumentos” e “instruções” de observação. Dificilmente a linguagem científica dá conta da concomitância dessas duas realidades impossíveis e absolutas em um só ente. Quem dá conta disso é a poesia.

Pois, muito mais que representar uma função específica da linguagem, a poesia somente revela o que a linguagem já é. É nesse desvelamento que a poesia se insere, trazendo novas e múltiplas definições para o real. A poesia – e aqui não estou falando de poemas, mas da poesia do poema (poesia da poesia) –, gesta, em seu estômago luminoso, a própria luz, em suas infinitas concomitâncias e espectros. Mais: a matéria luminosa da poesia ilumina a própria ficção da luz, fazendo-a luzir no real. E é no luzir real que a luz se ficcionaliza enquanto poesia, passível de ser sonhada pela física e enumerada pela matemática. Real e ficção sonham-se mutuamente nas escala do mesmo. 

Aliás, os limites impostos entre ficção e realidade talvez seja a maior fraude de nossa tradição filosófica, simulacro espistemológico da vontade de discernir o nós dos outros, amparado pelo julgamento clássico do que é falso e do que é verdadeiro. É pois que para a nossa didática não há sequer essa ideia. E não se trata de uma questão puramente retórica, mas concreta, que tem o poder de colocar o homem frente a questionamentos profundos quanto ao seu sistema ético. O desastre de Chernobyl, a desertificação do mar de Aral e o muro de Berlim servem bem como exemplos. Esses eventos teriam sido inacreditáveis caso não tivessem ocorrido. A única diferença aceitável entre ficção e realidade é o fato de aquilo ter acontecido ou não e sabemos que qualquer história, qualquer passado, é prospectivo ao futuro que se queira chegar e, portanto, segue determinados parâmetros absolutamente ficcionais (a ciência na qual qualquer história se baseia é uma ficção dela mesma). Todo passado é uma invenção e todo futuro uma possibilidade, sendo a única realidade o presente, este tão moldável quanto o sonho. É a ficção (do latim fingere, moldar) que conforma a coisa (res, real). Portanto, toda ficção é real. Essa é a contaminação máxima, aquela em que nos contaminamos do sonho e da morte – esses enigmas".

Coimbra, 1 de abril de 2009

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